O governo Dilma/PT/PMDB estuda adiar reajuste salarial do funcionalismo público federal de agosto para dezembro, segundo informações do jornal 'O Globo', o que significaria o descumprimento do acordo assinado com a categoria ao final de nossa última greve, realizada no período de agosto a outubro de 2015. Embora o ministro da fazenda, Joaquim Levy, tenha se apressado em negar a autoria da proposta, segundo notícia publicada no Portal do Servidor Federal no último dia 25 de novembro, ela voltou a ser discutida em Brasília ainda na semana passada.
O reajuste dos servidores, já adiado de janeiro para agosto, sofreria novo adiamento para dezembro. O adiamento do reajuste dos servidores federais dos três Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) para dezembro do próximo ano representaria uma economia de R$ 5 bilhões a R$ 6 bilhões no ano, segundo cálculos de consultores orçamentários do Congresso Nacional obtido pelo site especializado em economia Valor PRO.
A justificativa daqueles que dentro da equipe econômica do governo propõem o adiamento é de que esta medida visaria garantir a realização de um “esforço fiscal” para assegurar em 2016 uma “economia” da ordem de 0,7% do Produto Interno Bruto (PIB). Segundo este setor do governo, a medida seria necessária para compensar as receitas que não alcançaram o patamar esperado. A proposta de adiamento, no entanto, não é consensual.
O Ministério do Planejamento revisou na semana passada a previsão de retração da economia brasileira de 1,0% para 1,9% do PIB. Esta previsão de uma retração maior do PIB, associada à margem apertada para corte de gastos, torna cada vez mais difícil garantir um superávit de 0,7% do PIB no próximo ano. Por essa razão os técnicos estão discutindo todas as fórmulas possíveis, e nelas o adiamento do reajuste do funcionalismo público.
Se por um lado a quebra do acordo representaria um maior desgaste do governo junto ao funcionalismo, trazendo consigo a ameaça de uma nova greve dos servidores públicos federais em 2016, por outro lado, o governo parece não ter muitas alternativas para assegurar o pagamento do superávit (dívida pública) aos grandes banqueiros nacionais e internacionais, como deixou claro a medida desesperada de contingenciamento orçamentário anunciada no inicio desta semana que bloqueou R$ 11,2 bilhões de despesas discricionárias do Orçamento da União.
Afinal, outras possibilidades como o adiamento do reajuste do salário mínimo ou a volta da CPMF, esbarram de forma ainda mais decisiva na opinião pública, que poderia frustrar as pretensões eleitorais do PT e seus aliados nas eleições municipais de 2016 e comprometer ainda mais um governo que já sofre com a impopularidade de Dilma e a Operação Lava-Jato. Diante de alternativas assim, comprar uma briga com o funcionalismo e apostar na continuidade da campanha midiática, que busca colocar a opinião pública contra a categoria, apresentando os servidores públicos como privilegiados que insistem em “chorar de barriga cheia” em meio à crise econômica, pode parecer aos olhos de Dilma e Levy, o menor dos males.
O que temos visto acontecer na esfera estadual nos dá uma mostra da disposição dos governos em atacar os servidores públicos. No Rio Grande do Sul, o governo do PMDB, com a justificativa da crise financeira, parcelou em quatro vezes o pagamento do salário do funcionalismo público estadual nos meses de julho e agosto, uma medida que, embora suspensa desde setembro por liminar expedida pelo tribunal de justiça do estado, não deixou de ser copiada pelo governo do estado do Rio de Janeiro, também do PMDB, que esta semana anunciou o parcelamento de salários dos servidores públicos estaduais fluminenses, e pelo governo do PSDB, no Paraná, que ainda no final de novembro determinou que o parcelamento do adicional de férias de todos os servidores estaduais que decidirem tirar férias em nos meses de dezembro e janeiro. Tudo isso para garantir o pagamento da dívida pública.
Mesmo a recente pressão pelo impeachment de Dilma é uma via em duas mãos, se por um lado o calote no funcionalismo pode significar uma nova onda de manifestações contrárias ao governo e colocar lenha na fogueira da crise política, por outro, é justamente a necessidade de garantir a meta de superávit que tem assegurado o apoio da elite financeira e empresarial a qualquer projeto que vise estabilizar o cenário político, tanto na perspectiva do governo que tenta se agarrar ao poder, quanto da oposição de direita que luta pela chave do cofre em Brasília para implementar o mesmo plano de Ajuste Fiscal que vinha sendo tocado por Dilma e Levy.
O governo federal tem até o dia 18 de dezembro para enviar ao Congresso propostas com impacto orçamentário para 2016, revelando sua real disposição, ou não, em dar um calote nos servidores. Caso se concretize, o adiamento exigirá uma resposta firme da categoria, nos obrigando a organizar uma forte greve nacional unificada, ainda no primeiro semestre do ano que vem.
Este cenário, entre outras coisas, reafirma a necessidade de que a categoria siga mobilizada e de que fortaleçamos a oposição de esquerda à direção governista da CONDSEF, que tem emperrado as lutas da categoria e que atuou durante toda a greve deste ano no sentido de desmontar nosso movimento paredista, recusando-se intransigentemente a convocar um comando nacional e construir efetivamente uma greve pela base, unificada com os demais setores do funcionalismo.







