terça-feira, 27 de outubro de 2015

SOBRE A GREVE DO IEC/CENP: QUANDO PORTÕES ESCANCARADOS LIBERTARAM NOSSAS MENTES E CORAÇÕES.





“Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
Não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
Pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada,
De arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada,
Nada deve parecer natural,
Nada deve parecer impossível de mudar.”

− Bertold Brecht, Nada é impossível de mudar.

Durante nossa greve que durou 67 dias, o Instituto Evandro Chagas e o Centro Nacional de Primatas tiveram suas estruturas abaladas por uma greve histórica que mudou rotinas, questionou velhas certezas e legou importantes lições para todos nós.
Nossa greve foi uma expressão da brutalidade dos ataques lançados contra os trabalhadores pelo governo Dilma/PT/PMDB que tenta impor ao conjunto do funcionalismo público uma política de congelamento salarial, enquanto retira nossos direitos, impondo a previdência complementar a nossos colegas recém-ingressos e reduz ou retira de vez nosso adicional de insalubridade para assegurar o pagamento da dívida pública, financiando os lucros recordes dos grandes banqueiros nacionais e internacionais.
Mas foi também uma expressão do acumulo de décadas de descaso, desrespeito e falta de democracia impostos aos trabalhadores que cotidianamente constroem essas instituições e onde, até então, imperava uma verdadeira lei do silêncio fundamentada na lógica nefasta do “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, e assegurada por doses maciças de assédio moral. Essa realidade nós, felizmente, começamos a deixar para trás com essa greve.
Construída pela base e de forma democrática, discutida em vários locais de trabalho e em assembleias bastante representativas, nossa greve surgiu como um verdadeiro tsunami fazendo emergir de uma superfície aparentemente plácida a força oculta dos trabalhadores que movem as engrenagens que fazem funcionar o IEC/CENP, um poder que nem nós mesmos sabíamos possuir.
Durante semanas nós, os trabalhadores, tomamos em nossas mãos o controle de nossas instituições, organizamos piquetes, discutimos e garantimos o funcionamento das essencialidades.
Enfrentamos mandatos judiciais, o assédio moral institucionalizado que levou a que nossos delegados sindicais de luta fossem citados, uma atitude recriminada até mesmo que juiz que exigiu a AGU a retirada dos nomes de nosso colegas da ação judicial que a direção do IEC moveu contra a greve. Enfrentamos a intransigência das direções que se recusaram a apresentar ao comando de greve uma lista formal de essencialidades e não receberam os grevistas para discutir nossa pauta especifica até esse momento. Enfrentamos também a presença da Polícia Federal que foi lançada contra os grevistas pela direção do IEC. E as ameaças de desconto do dias parados. Apesar de tudo resistimos, porque nossa luta é justa e sempre estivemos unidos.
Nossos detratores tentaram transformar os cadeados e as correntes dos grevistas no símbolo de nossa greve, lançando contra aqueles que ousaram lutar as calúnias de desordeiros, baderneiros e autoritários, quando o controle do acesso aos portões não foi mais do que o cumprimento dos clamores da categoria expresso reiteradas vezes em nossas assembleias.
A verdade é que o símbolo de nossa greve foram os portões escancarados, mantidos assim pelas correntes e os cadeados colocados pela própria administração dos órgãos, uma atitude desesperada diante da força e da determinação daqueles que não se curvaram às intimidações do corte de ponto, da perseguição das chefias, do mandato na justiça e da presença da polícia federal.
Portões escancarados que expuseram o patrimônio público e a vida de nossos colegas vigilantes ao serem abertos pela madrugada. Mas que expuseram também a pratica daqueles que se dizem comprometidos com nossas instituições e seus servidores, mas que não titubeiam em colocar em risco nosso patrimônio e pessoal por não estarem dispostos a reconhecerem a legitimidade de nosso movimento e negociarem conosco a questão da essencialidade. Afinal, porque a Direção recusou-se a atender as insistentes solicitações de reuniões feitas pelos grevistas para tratar desse tema, além de nossa pauta específica?
Nossa greve termina com os portões escancarados até o último dia, como prova cabal da força de nosso movimento. Termina pela decisão da categoria, que decidiu que era a hora de retornar ao trabalho para seguir na luta, e não por um decreto da direção ou da administração. Deixando claro para todos nós quem tem de fato o poder de fazer funcionar nossas instituições. Essa consciência e nossa união são os maiores legados dessa greve histórica. Muito mais do que os parcos ganhos financeiros que conseguimos arrancar de um governo que planejava manter congelado nossos salários.
Os portões escancarados também nos lembram de outra característica marcante de nossa greve, nossa disposição em transpor os muros do IEC e do CENP, conhecer a realidade de outros órgãos em greve como o nosso e lutar ombro a ombro com nossos colegas de outras instituições. Afinal, nossa luta é uma só, em defesa dos servidores e do serviço público.
Estivemos presentes nas greves da FUNASA, UFPA, UFRA, IPHAN e INCRA. Estes colegas também estiveram conosco em frente ao portão do IEC, engrossando o caldo e usufruindo do sol abrasador, companhia constante de tantos e tantos piquetes.
Nossos representantes estiveram nas plenárias da Condsef em Brasília, tomando pé de como realmente ocorrem as negociações e de como o atrelamento de nossa confederação à CUT e ao governo nos impediram de ter uma greve nacional muito mais forte e vitoriosa. Mudar os rumos da Condsef, construindo uma oposição ao governismo e construir um novo sindicalismo desatrelado de governos e patrões é um dos muitos desafios que temos pela frente.
Tivemos representantes também na Marcha Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras em São Paulo no dia 18 de Setembro, contra o ajuste fiscal implementado pelo governo Dilma/PT/PMDB e também apoiado pela oposição de direita encabeçada por Aécio/PSDB, unidos contra os nossos interesses e no comprometimento em garantir os lucros de banqueiros, grandes empresários e empreiteiros.
Participamos do encontro que seguiu, no dia 19, também em São Paulo, onde trabalhadores de diversas categorias das três esferas do funcionalismo e da iniciativa privada de todo o país, junto com estudantes e outros movimentos sociais discutiram os próximos passos para unificar as lutas rumo à construção e uma greve geral. Afinal, essa é uma necessidade para barrar o ajuste fiscal e garantir reajuste de verdade em nossos salários, a reconquista de nossos direitos e qualquer nova reivindicação.
Esta foi uma greve que escancarou portões, mentes e corações. Mas foi só um primeiro passo. Resta-nos seguir na luta por nossa pauta especifica junto às direções do IEC e do CENP, exigindo a democratização de nossos órgãos, o fim do assédio moral e a restituição de nosso adicional de insalubridade.
A direção do IEC discute neste momento, a portas fechadas, nosso regimento interno. Porque nós, os maiores interessados neste documento, não somos chamados para discuti-lo? Porque os servidores da Fiocruz mantiveram  seu adicional de insalubridade e conquistaram o direito de eleger seus superiores enquanto nós devemos nos conformar e nos calar? A direção precisa responder a essas e outras questões.
No mais, queremos agradecer ao apoio decisivo que recebemos de nosso sindicato, o SINTSEP-PA, e a todos aqueles que doaram seu tempo e esforço para construir conosco essa greve vitoriosa. Esperamos ser mais e melhores nas lutas que teremos pela frente, enriquecidos todos pelas experiências que tivemos nestes dias extraordinários.
Aqueles que há mais de dois meses ousaram somar-se a confraria de descontentes que construíram esse movimento, retornam hoje a seus postos de trabalho transformados pela experiência de descobrir em si mesmos uma força que desconheciam, a força da nossa união.
Sabemos que não estamos sozinhos e sabemos que as vitórias que conquistamos inspiraram outros a se somarem a nós. Dizemos desde já, sejam bem vindos! A ampla participação da categoria é a única garantia de que no futuro teremos vitórias ainda maiores e que nosso movimento não se desviará do caminho que todos almejamos.

Sim, é verdade, ainda há muito a ser feito, mas agora sabemos, não restam dúvidas, vemos e vivemos, sem luta não há vitória!

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