“Desconfiai
do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai,
sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos
expressamente:
Não aceiteis
o que é de hábito como coisa natural,
Pois em tempo
de desordem sangrenta, de confusão organizada,
De
arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada,
Nada deve
parecer natural,
Nada deve
parecer impossível de mudar.”
− Bertold Brecht, Nada é impossível de mudar.
Durante nossa greve que durou 67 dias, o
Instituto Evandro Chagas e o Centro Nacional de Primatas tiveram suas
estruturas abaladas por uma greve histórica que mudou rotinas, questionou
velhas certezas e legou importantes lições para todos nós.
Nossa greve foi uma
expressão da brutalidade dos ataques lançados contra os trabalhadores pelo
governo Dilma/PT/PMDB que tenta impor ao conjunto do funcionalismo público uma
política de congelamento salarial, enquanto retira nossos direitos, impondo a
previdência complementar a nossos colegas recém-ingressos e reduz ou retira de
vez nosso adicional de insalubridade para assegurar o pagamento da dívida
pública, financiando os lucros recordes dos grandes banqueiros nacionais e
internacionais.
Mas foi também uma
expressão do acumulo de décadas de descaso, desrespeito e falta de democracia
impostos aos trabalhadores que cotidianamente constroem essas instituições e
onde, até então, imperava uma verdadeira lei do silêncio fundamentada na lógica
nefasta do “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, e assegurada por doses
maciças de assédio moral. Essa realidade nós, felizmente, começamos a deixar
para trás com essa greve.
Construída pela base e
de forma democrática, discutida em vários locais de trabalho e em assembleias
bastante representativas, nossa greve surgiu como um verdadeiro tsunami fazendo
emergir de uma superfície aparentemente plácida a força oculta dos
trabalhadores que movem as engrenagens que fazem funcionar o IEC/CENP, um poder
que nem nós mesmos sabíamos possuir.
Durante semanas nós,
os trabalhadores, tomamos em nossas mãos o controle de nossas instituições,
organizamos piquetes, discutimos e garantimos o funcionamento das essencialidades.
Enfrentamos mandatos
judiciais, o assédio moral institucionalizado que levou a que nossos delegados
sindicais de luta fossem citados, uma atitude recriminada até mesmo que juiz
que exigiu a AGU a retirada dos nomes de nosso colegas da ação judicial que a
direção do IEC moveu contra a greve. Enfrentamos a intransigência das direções
que se recusaram a apresentar ao comando de greve uma lista formal de
essencialidades e não receberam os grevistas para discutir nossa pauta
especifica até esse momento. Enfrentamos também a presença da Polícia Federal
que foi lançada contra os grevistas pela direção do IEC. E as ameaças de
desconto do dias parados. Apesar de tudo resistimos, porque nossa luta é justa
e sempre estivemos unidos.
Nossos detratores
tentaram transformar os cadeados e as correntes dos grevistas no símbolo de
nossa greve, lançando contra aqueles que ousaram lutar as calúnias de
desordeiros, baderneiros e autoritários, quando o controle do acesso aos
portões não foi mais do que o cumprimento dos clamores da categoria expresso
reiteradas vezes em nossas assembleias.
A verdade é que o
símbolo de nossa greve foram os portões escancarados, mantidos assim pelas
correntes e os cadeados colocados pela própria administração dos órgãos, uma
atitude desesperada diante da força e da determinação daqueles que não se
curvaram às intimidações do corte de ponto, da perseguição das chefias, do
mandato na justiça e da presença da polícia federal.
Portões escancarados
que expuseram o patrimônio público e a vida de nossos colegas vigilantes ao
serem abertos pela madrugada. Mas que expuseram também a pratica daqueles que
se dizem comprometidos com nossas instituições e seus servidores, mas que não
titubeiam em colocar em risco nosso patrimônio e pessoal por não estarem
dispostos a reconhecerem a legitimidade de nosso movimento e negociarem conosco
a questão da essencialidade. Afinal, porque a Direção recusou-se a atender as
insistentes solicitações de reuniões feitas pelos grevistas para tratar desse
tema, além de nossa pauta específica?
Nossa greve termina
com os portões escancarados até o último dia, como prova cabal da força de
nosso movimento. Termina pela decisão da categoria, que decidiu que era a hora
de retornar ao trabalho para seguir na luta, e não por um decreto da direção ou
da administração. Deixando claro para todos nós quem tem de fato o poder de
fazer funcionar nossas instituições. Essa consciência e nossa união são os
maiores legados dessa greve histórica. Muito mais do que os parcos ganhos
financeiros que conseguimos arrancar de um governo que planejava manter
congelado nossos salários.
Os portões
escancarados também nos lembram de outra característica marcante de nossa
greve, nossa disposição em transpor os muros do IEC e do CENP, conhecer a
realidade de outros órgãos em greve como o nosso e lutar ombro a ombro com
nossos colegas de outras instituições. Afinal, nossa luta é uma só, em defesa
dos servidores e do serviço público.
Estivemos presentes nas
greves da FUNASA, UFPA, UFRA, IPHAN e INCRA. Estes colegas também estiveram
conosco em frente ao portão do IEC, engrossando o caldo e usufruindo do sol
abrasador, companhia constante de tantos e tantos piquetes.
Nossos representantes
estiveram nas plenárias da Condsef em Brasília, tomando pé de como realmente ocorrem
as negociações e de como o atrelamento de nossa confederação à CUT e ao governo
nos impediram de ter uma greve nacional muito mais forte e vitoriosa. Mudar os
rumos da Condsef, construindo uma oposição ao governismo e construir um novo
sindicalismo desatrelado de governos e patrões é um dos muitos desafios que
temos pela frente.
Tivemos representantes
também na Marcha Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras em São Paulo no dia
18 de Setembro, contra o ajuste fiscal implementado pelo governo Dilma/PT/PMDB
e também apoiado pela oposição de direita encabeçada por Aécio/PSDB, unidos
contra os nossos interesses e no comprometimento em garantir os lucros de
banqueiros, grandes empresários e empreiteiros.
Participamos do
encontro que seguiu, no dia 19, também em São Paulo, onde trabalhadores de
diversas categorias das três esferas do funcionalismo e da iniciativa privada
de todo o país, junto com estudantes e outros movimentos sociais discutiram os
próximos passos para unificar as lutas rumo à construção e uma greve geral. Afinal,
essa é uma necessidade para barrar o ajuste fiscal e garantir reajuste de
verdade em nossos salários, a reconquista de nossos direitos e qualquer nova
reivindicação.
Esta foi uma
greve que escancarou portões, mentes e corações. Mas foi só um primeiro passo.
Resta-nos seguir na luta por nossa pauta especifica junto às direções do IEC e
do CENP, exigindo a democratização de nossos órgãos, o fim do assédio moral e a
restituição de nosso adicional de insalubridade.
A direção do
IEC discute neste momento, a portas fechadas, nosso regimento interno. Porque
nós, os maiores interessados neste documento, não somos chamados para
discuti-lo? Porque os servidores da Fiocruz mantiveram seu adicional de insalubridade e conquistaram
o direito de eleger seus superiores enquanto nós devemos nos conformar e nos
calar? A direção precisa responder a essas e outras questões.
No mais,
queremos agradecer ao apoio decisivo que recebemos de nosso sindicato, o
SINTSEP-PA, e a todos aqueles que doaram seu tempo e esforço para construir
conosco essa greve vitoriosa. Esperamos ser mais e melhores nas lutas que
teremos pela frente, enriquecidos todos pelas experiências que tivemos nestes
dias extraordinários.
Aqueles que há
mais de dois meses ousaram somar-se a confraria de descontentes que construíram
esse movimento, retornam hoje a seus postos de trabalho transformados pela
experiência de descobrir em si mesmos uma força que desconheciam, a força da
nossa união.
Sabemos que não
estamos sozinhos e sabemos que as vitórias que conquistamos inspiraram outros a
se somarem a nós. Dizemos desde já, sejam bem vindos! A ampla participação da
categoria é a única garantia de que no futuro teremos vitórias ainda maiores e
que nosso movimento não se desviará do caminho que todos almejamos.
Sim, é verdade,
ainda há muito a ser feito, mas agora sabemos, não restam dúvidas, vemos e
vivemos, sem luta não há vitória!