terça-feira, 15 de março de 2016

SOBRE NOSSOS ANSEIOS DIANTE DA RECONDUÇÃO DO ANTIGO DIRETOR E OS DESAFIOS DO IEC/CENP FRENTE AOS DESMANDOS DO GOVERNO.




Quem não ousa tomar as rédeas do próprio destino, está fadado a se tornar refém dos desmandos alheios.
Já há três semanas a comunidade do Instituto Evandro Chagas e do Centro Nacional de Primatas voltou a ser surpreendida por outra repentina mudança de Direção. Os servidores que neste inicio de 2016 estão concluindo seus estágios probatórios, nos últimos três anos já passaram por três mudanças na gestão desses órgãos e conheceram três diferentes diretores, todos eles conduzidos ao cargo por indicação do Ministro da Saúde ou, diretamente, da própria presidência da República.
Esta inconstância reflete, entre outras coisas, o cenário de instabilidade política pela qual passa o país nos últimos anos, mas a verdade é que, enquanto o cargo de diretor depender de indicação política do planalto, estaremos sujeitos a essa situação.
Nós, servidores do Instituto Evandro Chagas e do Centro Nacional de Primatas, organizados no movimento IECENP pra Lutar, concordamos com o atual diretor, Dr. Pedro Vasconcelos, quando ele afirma que o “IEC não precisa de interferências externas”.  Mas entendemos que a única solução para este problema é a democratização de nossas instituições, a garantia da participação democrática de todos aqueles que as constroem nas tomadas de decisões sobre os nossos rumos, sem a interferência de indicações políticas ao sabor das conveniências do governo de plantão.
As chefias e os gestores precisam refletir os desejos e anseios da sociedade e do conjunto da comunidade que constrói no dia-a-dia o IEC e o CENP, independente de cargos ou funções. Afinal, somos todos essenciais para que nossas instituições tenham alcançado o reconhecimento que tem hoje e para que possam buscar ir além. É por isso que entendemos que combater as interferências externas e resguardar os interesses de nossas instituições significa assegurar um debate democrático sobre o regimento interno, com a participação de toda a comunidade, não apenas Pesquisadores e Tecnologistas. Permitindo-nos eleger diretamente nossos próprios chefes e Diretor. Como hoje, aliás, já ocorre inclusive na Fiocruz.
Somos contrários às indicações políticas, tanto quanto somos também contrários a que o Conselho Técnico Científico (CTC), uma instância meramente consultiva e de caráter técnico-científico, que nem sequer representa o conjunto de nossa comunidade institucional, uma vez que está restrito à participação de pesquisadores e tecnologistas, defina questões administrativas de interesse geral como a indicação de quem deve ocupar a Direção do IEC. O CTC não nos representa e não tem legitimidade para falar em nome de toda a comunidade institucional. 
Esperamos que nesta nova oportunidade à frente do IEC, nosso Diretor demonstre uma maior disposição de dialogo e um maior compromisso com a democracia do que demonstrou em sua gestão anterior, quando perseguiu dirigentes sindicais, acionou a Polícia Federal contra os servidores em greve e se recusou a receber uma comissão de servidores para discutir os problemas que nos afligem, como as irregularidades no SIREF e no trabalho em regime de plantão, a retirada ou diminuição de nosso adicional de insalubridade, o combate ao assédio moral, a democratização das discussões sobre o regimento interno e a necessidade de novos concursos para fazer frente ao déficit de pessoal que ainda assola nossas instituições.
Vivemos um momento decisivo de nossa história, onde o caos da saúde pública e a situação de penúria da pesquisa científica em nosso país, expostos pela recente epidemia do Vírus Zika, têm colocado o Instituto Evandro Chagas em foco no cenário político e científico internacional.
O temerário desafio de entregar, no diminuto prazo de um ano, uma vacina para prevenir a infecção por Vírus Zika, faz pesar sobre os ombros de todos aqueles que aqui trabalham a expectativa de milhões de brasileiros aterrorizados com a tragédia que representa a epidemia de microcefalia relacionada ao Zika, um desafio que coloca em jogo nossa reputação e história institucional.
Nós nos orgulhamos de construir essas instituições como centros de referência internacional na pesquisa biomédica e, também por isso, exigimos que o reconhecimento do governo federal com aqueles que estão na linha de frente do combate ao Vírus Zika, ao Dengue, ao Chikungunya, ao Ebola e tantos outros males, vá além do mero discurso demagógico e materialize-se em investimentos reais nas áreas de saúde pública e pesquisa científica.
Não é possível aceitar que os trabalhadores responsáveis pelo combate a essas doenças sofram ainda com a falta de direitos trabalhistas básicos garantidos pela constituição, como a restrição arbitraria do adicional de insalubridade e o reconhecimento do trabalho em regime de plantão, e, ainda, com as consequências do arrocho salarial e da política de desmonte e precarização que vitima o conjunto do serviço público e toda a população que dele depende.
Estar comprometido com o Instituto Evandro Chagas e o Centro Nacional de Primatas é estar também comprometido com a defesa dos direitos e interesses de nossos servidores e com a luta contra os cortes de recursos e o arrocho salarial que o governo tem implementado para garantir o lucro dos grandes banqueiros e empresários, enquanto mantêm a repugnante pratica da corrupção generalizada.
Esperamos que o compromisso de nosso atual Diretor, cuja trajetória científica inquestionável, construída no interior dessas instituições, é motivo de orgulho para todos nós, mostre-se, de fato, comprometido com os interesses da sociedade e da comunidade dos trabalhadores do IEC/CENP, e não com os interesses da presidente que, segundo seu próprio relato, o reconduziu pessoalmente de volta à função.
Afinal, mais do que qualquer prédio ou gestão, o IEC e o CENP não são mais do que o produto do esforço coletivo do conjunto dos trabalhadores que os constroem cotidianamente. E nada pode ser mais sensato do que reconhecer esse fato, valorizando-os e permitindo que tomemos as rédeas das instituições que todos nós construímos e assim, ainda que parcialmente, nos libertemos dos desmandos e intrigas palacianas que dominam os corredores sombrios do planalto.

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