Quem não ousa tomar as rédeas do próprio destino, está
fadado a se tornar refém dos desmandos alheios.
Já há três semanas a comunidade do Instituto Evandro
Chagas e do Centro Nacional de Primatas voltou a ser surpreendida por outra
repentina mudança de Direção. Os servidores que neste inicio de 2016 estão
concluindo seus estágios probatórios, nos últimos três anos já passaram por
três mudanças na gestão desses órgãos e conheceram três diferentes diretores,
todos eles conduzidos ao cargo por indicação do Ministro da Saúde ou, diretamente,
da própria presidência da República.
Esta inconstância reflete, entre outras coisas, o
cenário de instabilidade política pela qual passa o país nos últimos anos, mas
a verdade é que, enquanto o cargo de diretor depender de indicação política do
planalto, estaremos sujeitos a essa situação.
Nós, servidores do Instituto Evandro Chagas e do Centro
Nacional de Primatas, organizados no movimento IECENP pra Lutar, concordamos
com o atual diretor, Dr. Pedro Vasconcelos, quando ele afirma que o “IEC não
precisa de interferências externas”. Mas
entendemos que a única solução para este problema é a democratização de nossas
instituições, a garantia da participação democrática de todos aqueles que as
constroem nas tomadas de decisões sobre os nossos rumos, sem a interferência de
indicações políticas ao sabor das conveniências do governo de plantão.
As chefias e os gestores precisam refletir os desejos e
anseios da sociedade e do conjunto da comunidade que constrói no dia-a-dia o
IEC e o CENP, independente de cargos ou funções. Afinal, somos todos essenciais
para que nossas instituições tenham alcançado o reconhecimento que tem hoje e
para que possam buscar ir além. É por isso que entendemos que combater as
interferências externas e resguardar os interesses de nossas instituições significa
assegurar um debate democrático sobre o regimento interno, com a participação
de toda a comunidade, não apenas Pesquisadores e Tecnologistas. Permitindo-nos
eleger diretamente nossos próprios chefes e Diretor. Como hoje, aliás, já
ocorre inclusive na Fiocruz.
Somos contrários às indicações políticas, tanto quanto
somos também contrários a que o Conselho Técnico Científico (CTC), uma
instância meramente consultiva e de caráter técnico-científico, que nem sequer
representa o conjunto de nossa comunidade institucional, uma vez que está
restrito à participação de pesquisadores e tecnologistas, defina questões
administrativas de interesse geral como a indicação de quem deve ocupar a Direção
do IEC. O CTC não nos representa e não tem legitimidade para falar em nome de toda
a comunidade institucional.
Esperamos que nesta nova oportunidade à frente do IEC,
nosso Diretor demonstre uma maior disposição de dialogo e um maior compromisso
com a democracia do que demonstrou em sua gestão anterior, quando perseguiu dirigentes
sindicais, acionou a Polícia Federal contra os servidores em greve e se recusou
a receber uma comissão de servidores para discutir os problemas que nos afligem,
como as irregularidades no SIREF e no trabalho em regime de plantão, a retirada
ou diminuição de nosso adicional de insalubridade, o combate ao assédio moral,
a democratização das discussões sobre o regimento interno e a necessidade de
novos concursos para fazer frente ao déficit de pessoal que ainda assola nossas
instituições.
Vivemos um momento decisivo de nossa história, onde o
caos da saúde pública e a situação de penúria da pesquisa científica em nosso
país, expostos pela recente epidemia do Vírus Zika, têm colocado o Instituto
Evandro Chagas em foco no cenário político e científico internacional.
O temerário desafio de entregar, no diminuto prazo de um
ano, uma vacina para prevenir a infecção por Vírus Zika, faz pesar sobre os
ombros de todos aqueles que aqui trabalham a expectativa de milhões de
brasileiros aterrorizados com a tragédia que representa a epidemia de
microcefalia relacionada ao Zika, um desafio que coloca em jogo nossa reputação
e história institucional.
Nós nos orgulhamos de construir essas instituições como
centros de referência internacional na pesquisa biomédica e, também por isso, exigimos
que o reconhecimento do governo federal com aqueles que estão na linha de
frente do combate ao Vírus Zika, ao Dengue, ao Chikungunya, ao Ebola e tantos
outros males, vá além do mero discurso demagógico e materialize-se em
investimentos reais nas áreas de saúde pública e pesquisa científica.
Não é possível aceitar que os trabalhadores
responsáveis pelo combate a essas doenças sofram ainda com a falta de direitos
trabalhistas básicos garantidos pela constituição, como a restrição arbitraria
do adicional de insalubridade e o reconhecimento do trabalho em regime de
plantão, e, ainda, com as consequências do arrocho salarial e da política de
desmonte e precarização que vitima o conjunto do serviço público e toda a
população que dele depende.
Estar comprometido com o Instituto Evandro Chagas e o
Centro Nacional de Primatas é estar também comprometido com a defesa dos
direitos e interesses de nossos servidores e com a luta contra os cortes de
recursos e o arrocho salarial que o governo tem implementado para garantir o
lucro dos grandes banqueiros e empresários, enquanto mantêm a repugnante
pratica da corrupção generalizada.
Esperamos que o compromisso de nosso atual Diretor,
cuja trajetória científica inquestionável, construída no interior dessas
instituições, é motivo de orgulho para todos nós, mostre-se, de fato,
comprometido com os interesses da sociedade e da comunidade dos trabalhadores
do IEC/CENP, e não com os interesses da presidente que, segundo seu próprio
relato, o reconduziu pessoalmente de volta à função.
Afinal, mais do que qualquer prédio ou gestão, o IEC e
o CENP não são mais do que o produto do esforço coletivo do conjunto dos
trabalhadores que os constroem cotidianamente. E nada pode ser mais sensato do
que reconhecer esse fato, valorizando-os e permitindo que tomemos as rédeas das
instituições que todos nós construímos e assim, ainda que parcialmente, nos
libertemos dos desmandos e intrigas palacianas que dominam os corredores sombrios
do planalto.

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